Documentos revelam relatos de problemas de manutenção, pressão para não registrar panes e discussões internas sobre a liberação de aeronaves. Ao todo, 12 pessoas respondem à ação penal.
A investigação sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo, ocorrida em agosto de 2024, ganhou novos desdobramentos com a retirada do sigilo do processo. Depoimentos e mensagens internas da companhia reforçam a linha de investigação do Ministério Público Federal (MPF) de que problemas de manutenção nas aeronaves eram conhecidos por funcionários e que havia uma prática de omissão de falhas para evitar que aviões fossem retirados de operação.
Entre os documentos revelados está a perícia realizada no celular da comissária Rubia Silva de Lima, uma das quatro tripulantes que morreram na tragédia. Em uma conversa de novembro de 2022, o mecânico Alex de Souza Leandro, que atualmente figura entre os 12 réus do processo, escreveu que os aviões da empresa não caíam porque Deus gostava muito deles.
Para os investigadores, a mensagem demonstra que preocupações com as condições das aeronaves já eram manifestadas por funcionários de diferentes setores quase dois anos antes do acidente.
Outras conversas extraídas do aparelho também apontaram relatos recorrentes de panes, problemas de manutenção e voos realizados mesmo com falhas conhecidas. Em uma troca de mensagens de junho de 2024, por exemplo, uma tripulante relatou que uma aeronave operou sob calor extremo devido a problemas no sistema de ar-condicionado. Segundo a conversa, um comandante chegou a tentar cancelar uma etapa do voo, mas a operação foi mantida.
Denúncia à Anac relatou aeronave com 14 falhas
Outro documento que veio à tona com a abertura do processo foi uma denúncia formal encaminhada à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em setembro de 2023.
O relato descreveu uma situação em que uma passageira desmaiou após a temperatura no interior de uma aeronave da Voepass chegar a aproximadamente 40 graus. Segundo a denúncia, o avião havia decolado com os sistemas de ar-condicionado e pressurização inoperantes.
A passageira precisou ser levada ao compartimento de bagagens, apontado no documento como o único espaço com temperatura adequada para sua recuperação.
A denúncia também mencionava que a aeronave operava com 14 não conformidades técnicas ativas, entre elas problemas nos sistemas de climatização e degelo.
Pressão para não registrar problemas
Os depoimentos anexados ao processo indicam ainda que pilotos sofriam pressão para não registrar determinadas falhas nos livros de bordo e nos documentos oficiais de manutenção. A prática, segundo os relatos, teria como finalidade evitar que as aeronaves fossem impedidas de voar.
As investigações também destacaram conversas em um grupo de WhatsApp do qual participavam integrantes da diretoria e da área operacional da companhia. Conforme depoimentos reproduzidos nos autos, os participantes discutiam a liberação de aeronaves e o adiamento do registro de panes até que os aviões chegassem à base principal da empresa.
Outro ponto abordado no processo envolve os depoimentos dos ex-diretores Marcel Sarquis Moura e Carlos Alberto Costa. Os dois atribuíram um ao outro a responsabilidade pela supervisão da manutenção da frota antes do acidente.
A Polícia Federal, no entanto, não acolheu essa versão. No relatório final da investigação, os agentes apontaram que a responsabilidade pelas condições operacionais das aeronaves envolvia toda a cadeia de comando da companhia.
Doze pessoas respondem ao processo
Atualmente, 12 pessoas respondem à ação penal relacionada ao caso, entre elas o proprietário da empresa, José Luiz Felício Filho, além de diretores, gerentes e profissionais ligados à manutenção, ao controle operacional e à segurança de voo.
Em nota, a Voepass afirmou que continuará colaborando com a Justiça e com as demais autoridades responsáveis pela investigação. A companhia declarou que, ao longo de mais de três décadas de atuação, manteve a segurança operacional como princípio fundamental e reiterou sua solidariedade aos familiares das vítimas do voo 2283.
O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo, e resultou na morte de 62 pessoas, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes. O avião, um ATR 72-500, fazia o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP) quando caiu em uma área residencial do município.